Coração do Rio Grande
Sexta-Feira os dois brigaram feio. Ela desprezava o egoísmo dele, o fato de ele ser fã do Teixeirinha e sua mania por pausar os filmes de minuto em minuto para ir ao banheiro, ele desprezava a mania dela por limpeza e suas balas de menta com gosto de alvejante e os chicletes sem gosto. Mas, claro, tudo servia como pretexto para o tédio. Todos os amigos achavam que eles eram o casal perfeito, sem brigas e tudo o mais. Mas esse tipo de casal – o que todo mundo acha que é perfeito – é justamente aquele que explode e do nada, se finda.
Enquanto os dois gritavam um com o outro, acordando a velha do andar de baixo, cuja cacatua passava o dia cantarolando o hino nacional, um convento próximo era palco de outra grande ruptura. Uma das freirinhas perdeu o pai num acidente de carro. Trágico, diriam alguns. Irônico, diziam aqueles que sabiam no que o homem estava prestando atenção quando esborrachou o carro num muro. Com isso, a freirinha chorou e chorou e gritava “Deus, por quê?”. O padre dizia “não questione”. Ela dizia “eu questiono, oh, não pode haver um Deus capaz de fazer isso com seus filhos!”.
Ele pegou todas as roupas que pôde e jogou numa mochila, juntamente com alguns livros que demonstravam sua falta de bom-gosto. Desceu as escadas arrastando aquele bolo imenso de calças, camisas e auto-ajuda. Uma voz esganiçada gritava “impávido colosso” quando ele notou que a chuva começava a cair. Apressou o passo, – “terra adorada!” – atravessou a porta e correu, até chegar a um barzinho quase vazio, excetuando o garçom, dois velhos jogando damas e uma garota de aspecto jovial, carregando também uma mochila.
Então ele sentou-se ao seu lado. “Sabe”, disse ele, “eu perdi a fé que eu tinha no amor”. “E eu”, disse ela, “perdi a que eu tinha em Deus”. O irônico é que o pai dela havia morrido quatro horas antes, quando perdeu o controle do carro e foi de encontro a um muro. Tudo isso porque estava prestando atenção a uma cópia em vinil de “Teixeirinha, o Gaúcho Coração do Rio Grande” sendo jogada de uma janela por uma mulher furiosa com seu namorado.
~ por Matheus M Borges em Junho 19, 2009.
Publicado em Contos
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