Portugal Disse Sim ou Como a Reforma Ortográfica Afetará a Relação Autor-Personagem
Em Brasília, dezenove horas. Um dos aviões da Brasilis Airlines estava pronto para levantar vôo. Os passageiros ainda se acomodavam dentro da aeronave quando a aeromoça, loira e esguia, tomou o microfone. “Senhores passageiros, durante o vôo permaneçam em seus assentos, qualquer…”, mas fora interrompida por um homem careca na casa dos quarenta anos. “Mas, como faremos isso? A palavra ‘voo’ perdeu seu acento!”
Ela então largou o microfone. “O que o senhor disse?”, “Acabaram de tirar o acento de ‘voo’!”, “Como assim?”, “Portugal aceitou!”. Os passageiros entraram em alvoroço, muitos diziam não querer perder seus tremas e seus hífens, outros ficaram contentes, esperando que alguém tivesse oficializado “Erechim” ou “Erexim”. “Portugal aceitou?”, disse, incrédula, a aeromoça. “Infelizmente. Parece que vão tirar o acento dessas paroxítonas com ditongos!”, disse o careca.
“Oh! Mas que infortúnio! Meu mundo caiu… Deus!”, gritava a aeromoça. “Qual o problema?”, quis saber o careca. “Tiraram meu acento! Meu pobre acento, que dava todo o impacto de meu nome, oh, que tristeza! Agora serei confundida com o verbo ‘ler’ na terceira pessoa do singular do imperativo afirmativo! Por quê eu? Por quê?”.
“Fique calma, Léia”, alguém a tranqüilizou. “Olha!”, gritou um senhor gordo de barba branca. “O que foi?”, “No início do parágrafo! O autor escreveu ‘tranqüilizou’! Com trema!”, “É verdade! Ele também pôs ‘vôo’ com acento circunflexo no início da narrativa!”, “Alguém avise a ele que esses conceitos ortográficos estão obsoletos!”.
“Mas como? Ele não está nem narrando mais, já faz umas três ou quatro linhas, olha só, até já começou um parágrafo novo”. “Tive uma idéia!”, “É sem acento, seu idiota!”, “Desculpa. Tive uma ideia!”, “Qual?”, “Encerrar a narrativa do nada”, “Não dá”, “Por quê?”, “Por que o leitor espera que a gente faça alguma coisa contra isso, ou ao menos alguma ação”, “Mas não dá pra ter ação sem o narrador, sem ele podemos apenas dialogar”, “Então alguém faça o papel de narrador”.
“Aí os passageiros se sentaram de novo e falaram pro piloto voar…”. Podem parar por aí! “Quem é esse?”. Eu sou o autor, oras. O que vocês acham que estão fazendo? “Bom, tu sumiu, aí a gente não sabia o que fazer, a história tinha que continuar”. Eu só fui tirar uma dúvida acerca da reforma. Não sabia se “gaúcho” perdia o acento ou não. “E perdeu?”. Não. “Haha, claro que não! Se o gaúcho perder o assento não tem diversão!”, disse um sujeito marrento, antes de ser fulminado por um ataque cardíaco.
“O autor matou ele!”, gritou uma senhora gorda. O piloto deu início à partida. O avião para. “Curitiba!”. Não, o avião para, do verbo parar, não tem mais acento. “Ah, sim”. O avião para. Eu desisto. Melhor rasgar essa página antes que alguém leia. “Oi?”, “Cala a boca, sua aeromoça burra”.

você bem sabe que não tinha como não gostar, né? muito gracioso e inteligente. sorri horrores aqui. e sem nenhum acento.
fantástico!