O Encanador – Capítulo VII
O Papa observava toda aquela situação de braços cruzados. Apesar de ser a autoridade máxima da Igreja na Terra, não havia nada que ele pudesse fazer, a não ser pedir a Deus. Mas em momentos como esses, até o sacerdote-mor do catolicismo tem suas crises existenciais. “Ou Deus nos abandonou ou Ele planejou um segundo dilúvio. Sacanagem isso”, pensava ele enquanto via a Praça de São Pedro ser devorada pelas águas furiosas, sem saber que as águas não existiam.
“O que Vossa Santidade planeja fazer?”, perguntou um cardeal com cara de filhote de coruja. “Esperar até Deus ter piedade”. “E o que Vos faz ter tanta certeza da piedade divina?”, “Eu não disse que tenho certeza. Eu disse que vou esperar”. “Pois não espere, Santidade”. “E o que eu deveria fazer, ham? Anda, qual a sua sugestão?”
“Ao menos dê uma morte digna a essas pessoas”, disse o cardeal. “Ahn? Como assim?”, perguntou o Papa, surpreso. “Essas pessoas, ou melhor, todos nós morreremos pela água de uma forma ou de outra”. “É, eu acho que sim”. “Então, se Vossa Santidade pudesse dar a maior bênção da história da humanidade…”, sugeria o cardeal. “Explique”. “Simples: Vossa Santidade vai até a janela e abençoa toda a água que está arrasando o planeta, assim, todos morreremos prontos para entrar no Reino dos Céus!”
“Brilhante, Pietro, brilhante”, disse o Papa. “Obrigado, Santidade. Foi um enorme prazer passar parte da minha existência ao Vosso lado”. “Agradeço seu apreço, Pietro, mas eu não posso dizer o mesmo de você, afinal eu sempre te achei um baita de um puxa-saco”.
(último capítulo: 05/01/2009)

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