O Chiclete
Estamos os dois sentados no café, um frente ao outro. Eu encaro a boca dela, mascando aquele chiclete sabor hortelã. Na verdade, aquele meio-chiclete, já que a outra metade está dentro da minha própria boca. Não tem gosto. Certamente ela estava mascando isso ontem, pôs na geladeira quando foi dormir e voltou a mascar hoje. Afinal, são oito horas, ela acorda às sete e nenhum chiclete com bons conservantes perde cor e sabor em um intervalo de tempo tão curto.
“Que chiclete é esse?”, pergunto. “Aquele ali”, ela aponta para uma caixinha verde-pepino maduro repousando no balcão. Óbvio agora. Comprou o chiclete ontem, quando tomamos nosso café, bastante frio, diga-se de passagem. Não somente o café, nós estamos frios. Ela, com essa cara de Keith Richards, me ignora e despreza totalmente, a ponto de me dar um meio-chiclete velho e sem graça. Pensando bem, melhor ignorar a semelhança dela com o Keith Richards.
“Boa escolha”, eu minto. “É, sempre masco esse”, ela diz ambiguamente. Como assim “esse”? Alguém me responda, pelo amor de Deus. Sempre “esse”! Esse sabor? Esse mesmo chiclete que guardo há cinco anos? Estou chocado, ela me deu um meio-chiclete com propriedades arqueológicas. Cuspo? Melhor não. Não quero causar nenhum tipo de constrangimento. Engolir? E deixar essa coisa chegar ao meu estômago? Não, nem pensar.
Ah! Genial, genial, genial! Da próxima vez que eu colocar a xícara na boca, cuspo o café para dentro da mesma, converso com essa recicladora infeliz de chicletes, digo que não tem mais como continuar desse jeito, peço a conta, me levanto e vou embora. É o que eu vou fazer, perfeito. Nada podia ser melhor.
Meus dedos inseguramente seguram na asa da xícara. Sinto o café molhar meus lábios. Devolvo um pouquinho da bebida à xícara, juntamente com um meio-chiclete, possivelmente o pior meio-chiclete da história da humanidade. Funcionou, ótimo.
“Sofia, eu preciso falar contigo”, eu começo. “Ahn, pode falar”. “Ah, é o seguinte, não tem nada a ver contigo, mas eu acho que, ultimamente, ahn, a gente não tem dado certo”. Aqueles olhos de Keith Richards estão me olhando. Não sei o que eles refletem de verdade. “É, eu sei, o que tu quer que eu faça?”. “Nada, acho que não tem o que ser feito, só vamos sair daqui normalmente e, pronto, sem maiores esforços”. “E ignorar tudo o que a gente passou? Simplesmente acabar? Matheus, olha só… Vamos tentar levar por mais um tempo e…”, “Não”, eu digo. Me levanto da mesa.
No balcão, tiro uma nota de cinco e recebo uma nota de dois. Melhor sair daqui. Quando piso na calçada, vejo dezenas de chicletes que foram cuspidos ali mesmo. Isso me faz pensar. Talvez as pessoas que mascam o mesmo chiclete durante duas semanas, mesmo que o sabor já tenha se exaurido, sejam aquelas que tentam prolongar um relacionamento quase inexistente. Claro que nem todas se parecem com o Keith Richards.

eu também cuspiria fora, argh.
meu deus, eu tinha uma professora de matemática igual o mick jagger – não na sua fase gatchenho -, fico imaginando então uma namorada igual o keith richards.