Enquanto Isso, No Shopping Center…

Isabella caminhava pelos intermináveis corredores tumultuados do shopping center. Seus cabelos louros-quase brancos roçavam graciosamente nos braços dos óculos de armação branca à medida que seus pés tocavam o chão. Cada pisada, uma sacudidela no cabelo, um toque subseqüente de seus dedos em sua franja.

Naquela tarde de primavera, Isabella decidiu comprar roupas novas. Também estava ela naquele palácio consumista para dar um novo corte a seus cabelos, com um cabeleireiro chamado Edson, cuja voz soava extremamente estranha ao telefone, principalmente quando ele dizia “tô livre às quatro e meia, querida”.

Uma loja de roupas femininas, cuja logomarca era uma pimenta vermelha gigante, foi o primeiro destino da garota naquela tarde. Experimentou duas blusas, três calças e um par de sapatos vermelhos. Não sabendo ao certo o que gostaria de levar, optou por levar todos os produtos supracitados. Na hora de pagar, usou o cartão de crédito de seu pai, um advogado conhecido por sua avareza. Prestando atenção na seqüência de quatro dígitos tida como senha do cartão (2, 6, 1 e 9), Isabella não notou que o espelho à sua frente refletia o que a observava pelas costas.

Um rapaz de cabelos desgrenhados, nariz protuberante e barba mal-feita admirava a figura de Isabella por trás da vitrine. Permaneceu parado em frente à porta até que Isabella virou-se e prosseguiu suas compras, sem deixar de notar o quanto o estranho lhe parecia agradável.

Quatro e vinte e cinco. Esse era o horário quando Isabella entrou no salão de beleza e sentou-se em uma das cadeiras da sala de espera. Coincidentemente ou não, o estranho sentou-se em um banco em frente ao salão no mesmo horário, tentando pensar em alguma forma de aproximar-se de Isabella sem parecer completamente maluco.

Isabella, folheando uma revista feminina que datava de março de 2001, esperava pelo chamado de Edson. Um estranho atravessava a porta do salão. “Já disse que tô aqui te esperando, pô”, disse ele ao telefone antes de desligar e sentar-se ao lado de Isabella. “Minha mãe”, comentou ele, “sempre se atrasando”. “Oh, sim”, disse Isabella.

“Matheus”, apresentou-se o estranho, estendendo a mão. “Isabella”, disse a garota apertando delicadamente a mão do outro. Silêncio. “Então, o que tu vai fazer com o teu cabelo?”, disse Matheus, puxando assunto. “Ahn, acho que vou tirar um pouquinho daqui. E cortar as pontas”. “Mas tá tão bonito assim, Isabella”. “Ah, obrigada, ahn…”, “Matheus”. “Isso!”

Após alguns poucos minutos de conversa, os dois estavam absolutamente entrosados. Foi quando Matheus decidiu fazer uma revelação. “É, olha só, eu não tô esperando a minha mãe, eu… eu só entrei aqui pra falar contigo mesmo e essa foi a melhor coisa que eu consegui pensar”. Isabella tentou segurar uma risada. “Que coisa patética”, comentou Matheus. “Uma loucura”, disse Isabella, “acho que a gente devia tomar um sorvete”. Matheus, surpreso, consentiu com a proposta. Beijaram-se rapidamente e caminharam em direção à praça de alimentação.

E Edson estava novamente livre às quatro e meia.

~ por Matheus M Borges em Novembro 11, 2008.

Deixe uma resposta