Apelo #32

•Outubro 17, 2009 • Deixe um comentário

continue sendo a mesma
e não me deixe morrer na pobreza
me dê amor e dinheiro
me dê força e me dê cerveja
me dê proteção e um livro novo
me dê zero hora e correio do povo
me dê cachaça de graça
e me dê um beijo com gosto de anis

me dê amor e me faça feliz

me traga o chinelo e a camisa de seda
e deixe escorrer a água na pia
me tranquilize e me faça sentir pena
me dê tua voz e dor de cabeça
me traga teus cabelos e a tua beleza
me dê graça, clareza e perspectiva

me dê morte que eu te faço viva

me dê domingos de sono e preguiça
me arranhe com a unha postiça
me tranque no quarto e esqueça da chave
me dê dias e noites de insanidade
me deixe voar na tua espaçonave
me dê sono
me dê seno e co-seno
me deixe ser sua tangente
vamos nadar contra a corrente
vamos virar o mundo do avesso
vamos criar coragem e abandonar o país

vamos falar inglês em paris

me deixe trabalhar, furar a greve
me deixe moldar bonecos de neve
me dê chapéus coco e bengalas de sir
se faça de lady e me beije no rosto
se faça de santa e me tire o encosto
me olhe nos olhos, me embriague
me molhe nos óleos e me lambe em ziguezague
me sugue e me faça fumaça

me leia, me veja, me leve na praça.

Contos de Cafeteria

•Setembro 25, 2009 • Deixe um comentário

Dois caras cortando madeira. Um na Noruega. Outro em Nova Petrópolis. O cara da Noruega põe abaixo um elemento fiórdico. O cara de Nova Petrópolis serra uma cadeira colonial. O da Noruega diz “Odin Odin por quê diabos a vida é assim!?”. O de Nova Petrópolis assovia uma marchinha carnavalesca. O da Noruega dá um tiro na própria cabeça. O de Nova Petrópolis chega em casa e diz “querida o que tem pro almoço?”.

(…)

Criada a Terra (e seus habitantes), Deus pensou no que deveria ter sido projetado de maneira diferente. Olhou os elefantes, em suas formas tão bizarras: a tromba, as orelhonas. Deixou assim. As avestruzes – desengonçadas avestruzes! – também assim permaneceram. Viu a espécie humana. Ele então disse “não há problema algum com eles, são perfeitos!”. Deus não tem visão de raio x.

(…)

- Menina, adorei seus olhos azuis.
- Verdes. Como o mar. Como aquele orelhão.
- É que eu sou daltônico, acho.
- Eu sou metodista.
- Não, não é isso.
- Eu sei que não, mas informação nunca é demais.
- Concordo, garota. Quero seu nome-telefone-curriculum vitae. Acho que você começa na segunda.

(…)

- Senador, o senhor fuma? Porque eu fumo e espero que a fumaça não lhe perturbe.
- Não tem problema não, eu fumo, mas fumo escondido. Não pega bem lá em casa.
- Então tá certo. Senador, tem um outro probleminha: eu sou cleptomaníaca.
- Não tem problema não, eu roubo, mas roubo escondido. Não pega bem lá em casa.

(…)

- Eu vou comprar um cavalo.
- Um cavalo? Pra quê um cavalo?
- Quando eu era uma garotinha, eu queria um pônei. Eu cresci, meus desejos cresceram. Os objetos de desejo também.
- Mas onde você pretende guardar um cavalo?
- No meu coração…
- Não seja tola.
- Tolice seria se eu tivesse desistido de meus desejos!
- Você se comunica através de frases de efeito.
- Por isso eu sou uma personagem tão ruim.

Frivolidades Psicológicas de Uma Noite de Agosto na Visão de Um Casaco Preto

•Agosto 23, 2009 • Deixe um comentário

As mesas estavam freqüentemente vazias no mês de agosto. Até porque fazia um frio horrível e ninguém queria sair de casa, ser atacado por um novo serial killer ou algo assim. Os sons surdos da noite – miados de gatos, assovios do vento e gritos de orgasmo – ecoavam no espaço vazio da cidade. A cidade. Iluminada permanentemente pelas lâmpadas cor de laranja dos postes, todos encravados em apenas um dos lados da rua.

Aquela meia meia-dúzia de gente que se encontrava ali paradinha num escurinho frustrado por uma fílmica iluminação vermelha dezesseis milímetros para dar a ilusão de um calorzinho gostoso de março. Mas veja bem, é quase impossível quebrar o frio dessa maneira. Nem o casacão preto de lã – comprado dois anos antes em Gramado – poderia enfrentar a temperatura absurdamente fria. Ou a psique absolutamente fria. E olha que aquele par de olhos oblíquos – justamente do amigo que vestia o casaco, que vamos chamar de Enrico – poderia fritar um ovo.

Dava pra ouvir de vez em quando o barulhinho dos copos de vidro batendo na mesa de madeira, uma madeira não muito fina, não vá esperando um mogno. E de que vale o mogno por aqui? A depressão tomava conta do lugar, não fossem os luminosos dentes branquíssimos – graças a um exaustivo tratamento dentário de quase uma vida toda – que se destacavam em meio àquela pequenina multidão. E olha que a depressão corria nas veias do amigo Enrico. E olha que esses dentes não eram dele. Apesar de o amigo Enrico ter dentes.

E foi aí que o Enrico piscou umas duas vezes e deu umas lacrimejadas por ter sem querer jogado um pouquinho da fumaça contra os olhos e, olhando pro lado, dando uma baforada e dizendo “merda”, reparou na alva luminescência emanada por aquela árcade arcada dentária. E o que ele poderia ter feito? Ter ido pra lá e dito “garota, tens fogo?”, “garota, queres fogo?”, “garota, tens namorado?”, “garota, queres namorado?” ou nada? Ele fez nada. E deu uma desprezadinha de canto. E outra baforadinha de canto pra não perder o costume. E lembrou do filme que tinha visto na última quinta-feira.

E, jogando os negros cabelos para trás, ela fingiu não ter notado o desprezo do amigo Enrico e sonhou em ter aquela barbinha de uma semana e três dias roçando no seu pescoço. E repondo os lábios sobre os dentes, sonhou ter sido desprezada mais uma vez pelo cara da outra mesa. Pensou se não teria sido mais fácil ir até lá e dito “gostei desse casaco bala” e ele poderia ter respondido “é, é bem bonito mesmo, comprei em Gramado num desses invernos” ou então “eu não”, num ato de desprezível sarcasmo que ela iria adorar.

Duas narrativas curtinhas só pra dizer para mim mesmo que eu ando criando alguma coisa ultimamente.

•Julho 21, 2009 • Deixe um comentário

Decidi colocar estas duas coisinhas juntas porque elas meio que se completam. Ambas são sobre como falar a coisa errada acaba atrapalhando tudo que é bosta e fazem, de uma forma ou de outra, referência a alguma personalidade da história do cinema.

1. TODOS DIZEM HITCHCOCK

O ano era dois mil e nove. O ônibus, dois cinco três. Estava lotado. O carinha que entrega pizza de segunda à segunda estava sentado do lado da tia que faz as leituras do Novo Testamento em todas as missas que pode, dando preferência ao Evangelho de João. O chiado da porta abrindo, o barulho dos pés descendo e subindo. O carinha que entrega pizza e a tia que lê o Novo Testamento ficaram por ali. Agora seus lugares eram ocupados por um rapaz com cara de quem gosta de Hitchcock e uma moça carregando uma sacola.

Os olhos do rapaz corriam da sacola para a moça, da moça para a sacola. Sob o plástico, notou com surpresa, um rosto bochechudo. Aproximou-se. Disse “Hitchcock”. “Hitchcock”, confirmou a moça. A diferença era enorme. Ele dizia “ríti-cóque”, ela dizia “rít-coc”, com um pronúncia que parava ali no “ck”. Ficou por assim mesmo.

2. MARLENE DETRITO

Ela andava toda charmosa quando descia do caminhão. Ela recolhia as sacolas de mercado recheadas de cocô e jogava naquele moedor instalado na parte de trás do veículo. Ela sentia o cheiro da merda dos outros sendo esmagada pelos dentes metálicos. Ela escondia unhas bem-feitas sob a luva grossa cor de qualquer coisa que seja tão cinzenta quanto aquela luva.

Seus cabelos ruivos esvoaçavam quando ela corria. A figura dela contrastava com o cenário cinzento da cidade e com os colegas de trabalho, machos men de um metro e noventa de altura, transpirando hormônios todos os dias, para que sobrevivessem ao fim do mês. Era certamente a gari mais bela da cidade.

“Oi”, disse Davi, quando a estonteante funcionária pública puxou um saco preto do cesto. “Oi”. “Sabe que faz umas duas semanas que tu recolhe meu lixo”. “Aham. Esse é o meu setor novo”. “Entendo… Isso te satisfaz profissionalmente?”. “Isso de recolher a merda dos outros?”. “Ahn, é”.

Sétimo Dia

•Julho 9, 2009 • Deixe um comentário

Então foi naquele dia que você se sentia deslocada
Abandonada pelos seus amigos e por sua sorte
Que eu pensei que poderia te enxergar perfeitamente
E que você era feita de algum material valioso
Porque eu fiquei com muito medo de te tocar.

E parece que todo o céu se fechou para nós naquela noite
E que Deus de fato existia e nos observava de longe
Se sentindo bastante orgulhoso pelas coisas que criou
E pelas coisas que ainda há de criar.

Não que eu tenha desistido do ateísmo
Mas com essa visão tão nítida do Paraíso
Fica até difícil desacreditar.

As Ligações Perigosas

•Julho 3, 2009 • Deixe um comentário

A coisa parecia ser grave, julgando o modo como ela me ligou hoje depois do almoço. Lembro de ter ouvido o telefone tocando, de baixar o cafezinho e puxar o aparelho de dentro do bolso. “Alô”. “Alô, oi Felipe, sou eu, Ana”. “Ana, oi, que bom falar contigo”, disse cinicamente. “Felipe, é o seguinte, eu preciso falar contigo urgentemente…”, “Já tá falando, oras”. “Não, não, é um assunto urgente. Hoje, dezenove horas, me espera em casa”. E ela desligou.

Eu não agüentava mais a voz dela. Eu não agüentava mais olhar para a cara dela e fingir que a nossa vida era toda unicórnios e nuvens de amor. Eu não agüentava mais ter que conviver com ela. E tudo começou justamente quando eu decidi investir mais firmemente em nossa relação e, ora essa, Ana transformou-se completamente. De uma das pessoas mais doces e inteligentes que já conheci à uma roedora compulsiva de unhas com insights tricotilomaníacos. Apesar disso, eu pensava “a vida é boa, sim senhor, a vida é boa”.

“Sabe de uma coisa, ela vai dizer que está grávida”, disse o Paulo, colega da firma, quando falei do misterioso telefonema da Ana. “Tu acha mesmo?”. “Felipe, eu já recebi essa ligação três vezes, vai por mim”. O Paulo sabia das coisas. O Paulo sempre sabia das coisas. Ele tinha quarenta e cinco, cara de trinta e oito, segundo casamento, três filhas, o carro do ano. Morreria de um infarto no ano seguinte. Sua vida foi boa.

Às quinze horas comecei a encarar o relógio. Dali a quatro horas eu estaria sendo transportado para um universo de fraldas e mamadeiras e arrotos e choros às quatro e meia da madrugada. Um universo do qual eu não conseguiria escapar. Um universo em constante expansão, cedo ou tarde ela pediria um segundo e, talvez, um terceiro. Ah, se eu fosse como o Paulo. Pelo menos ele teve duas. Eu tenho a Ana, mordendo as unhas e arrancando os cabelos.

Quando eu cheguei em casa, fiz questão de checar se Ana não estava por lá. Não estava, ainda bem. Caminhei apressadamente em círculos pela sala durante um bom tempo, imaginando minha vida como um pai de família porque, um filho ou acarreta em casamento, ou em aborto e, sabendo da fina educação da Ana em bons colégios fascistamente católicos, só me restava a primeira opção. “Minha vida é tão melhor assim, oh, e agora que faço?”, gritava para as paredes, que insistiam em se manter caladas. Vai ver tinham medo de influenciar minhas decisões, me transformar num ser infeliz e encarar minha desgraça de perto todos os dias até o dia de minha morte. Malditas, meu filho riscará vocês todos os dias com seus lápis de cera.

Ouvi a chave girando na fechadura. “Oh não, é agora, não tem mais como escapar!”. “Oi Felipe, como foi o trabalho?”. “Tudo bem, a mesma coisa de sempre, he-he”, disse, sorrindo amarelo. Notei que o cabelo dela andara caindo bem mais que o normal, talvez fossem os insights tricotilomaníacos, talvez fosse o uso abusivo da chapinha. Permaneci de pé junto ao abajur. Ela foi até a cozinha e ligou a TV. Talvez fosse o último capítulo da novela das sete.

“E então?”, eu disse. “Ham?”. “Tu queria falar comigo, tu me ligou hoje depois do almoço, então, pode falar”. Ela desligou a TV. O ato de desligar a TV indica seriedade absoluta, inquestionável, sempre foi essa a regra lá em casa. Principalmente quando eu mostrava o boletim para o meu pai. Zás e o Sérgio Chapelin ou o Cid Moreira (eventualmente o Antonio Fagundes) se desintegrava na hora. “Melhor tu te sentar”, ela me disse. Sentar era outra coisa que implicava em seriedade máxima, o que eu nunca entendi. Se alguém, sentado, recebe uma má notícia, levanta-se e coça a cabeça. Se alguém, de pé, recebe uma má notícia, senta-se e afunda a cabeça nas mãos. Sentei.

“Pronto, pode falar”. “Olha, Felipe, isso não é fácil, mas, olha, acontece que, de uns tempos para cá, eu sinto que tudo anda tão fraco entre a gente, tudo tão capenga, eu me sentia tão vulnerável e abandonada e indesejável que, bem, eu acabei, ham, como eu posso dizer, eu andei… Eu tô tendo um caso com outro cara, é isso”. Fitei o rosto de Ana. Fitei a cabeça de ralos cabelos. Os dedos com leve cobertura de sangue parcialmente coagulado. Sorri. Não havia atraso na menstruação, nem enjôos, só havia outro cara! “A vida é boa”, pensei, “principalmente quando só há uma por corpo”.

Dúvida

•Junho 29, 2009 • 1 Comentário

Eu te chamo dúvida,
Porque é só o que vejo na cidade
Sempre que atravesso a rua.
É só dúvida de virar a esquina do avesso
Ou deixar no lugar de sempre.
Dúvida não muda endereço
E nem mata de cansaço.
Dúvida faz mal para a cabeça
Se é dúvida em excesso
Ou se duvido escasso.

Eu te chamo dúvida
E te proclamo assim.
Duvido muito de ti
Mas tu não duvida de mim.

Duvida?

Coração do Rio Grande

•Junho 19, 2009 • Deixe um comentário

Sexta-Feira os dois brigaram feio. Ela desprezava o egoísmo dele, o fato de ele ser fã do Teixeirinha e sua mania por pausar os filmes de minuto em minuto para ir ao banheiro, ele desprezava a mania dela por limpeza e suas balas de menta com gosto de alvejante e os chicletes sem gosto. Mas, claro, tudo servia como pretexto para o tédio. Todos os amigos achavam que eles eram o casal perfeito, sem brigas e tudo o mais. Mas esse tipo de casal – o que todo mundo acha que é perfeito – é justamente aquele que explode e do nada, se finda.

Enquanto os dois gritavam um com o outro, acordando a velha do andar de baixo, cuja cacatua passava o dia cantarolando o hino nacional, um convento próximo era palco de outra grande ruptura. Uma das freirinhas perdeu o pai num acidente de carro. Trágico, diriam alguns. Irônico, diziam aqueles que sabiam no que o homem estava prestando atenção quando esborrachou o carro num muro. Com isso, a freirinha chorou e chorou e gritava “Deus, por quê?”. O padre dizia “não questione”. Ela dizia “eu questiono, oh, não pode haver um Deus capaz de fazer isso com seus filhos!”.

Ele pegou todas as roupas que pôde e jogou numa mochila, juntamente com alguns livros que demonstravam sua falta de bom-gosto. Desceu as escadas arrastando aquele bolo imenso de calças, camisas e auto-ajuda. Uma voz esganiçada gritava “impávido colosso” quando ele notou que a chuva começava a cair. Apressou o passo, – “terra adorada!” – atravessou a porta e correu, até chegar a um barzinho quase vazio, excetuando o garçom, dois velhos jogando damas e uma garota de aspecto jovial, carregando também uma mochila.

Então ele sentou-se ao seu lado. “Sabe”, disse ele, “eu perdi a fé que eu tinha no amor”. “E eu”, disse ela, “perdi a que eu tinha em Deus”. O irônico é que o pai dela havia morrido quatro horas antes, quando perdeu o controle do carro e foi de encontro a um muro. Tudo isso porque estava prestando atenção a uma cópia em vinil de “Teixeirinha, o Gaúcho Coração do Rio Grande” sendo jogada de uma janela por uma mulher furiosa com seu namorado.

O Teu Catarro

•Março 31, 2009 • 2 Comentários

Ainda sinto o teu catarro
Cheiro de café
Gosto de cigarro.

O teu catarro.

Preso na minha garganta.

A boca que beija
É a boca que fala.
Tua boca me beija
Minha boca te cala.

Tua boca despeja
O teu catarro.

Minha boca saliva
E ainda implora
Por uma gota lasciva

Do teu catarro.

Portugal Disse Sim ou Como a Reforma Ortográfica Afetará a Relação Autor-Personagem

•Março 3, 2009 • 2 Comentários

Em Brasília, dezenove horas. Um dos aviões da Brasilis Airlines estava pronto para levantar vôo. Os passageiros ainda se acomodavam dentro da aeronave quando a aeromoça, loira e esguia, tomou o microfone. “Senhores passageiros, durante o vôo permaneçam em seus assentos, qualquer…”, mas fora interrompida por um homem careca na casa dos quarenta anos. “Mas, como faremos isso? A palavra ‘voo’ perdeu seu acento!”

Ela então largou o microfone. “O que o senhor disse?”, “Acabaram de tirar o acento de ‘voo’!”, “Como assim?”, “Portugal aceitou!”. Os passageiros entraram em alvoroço, muitos diziam não querer perder seus tremas e seus hífens, outros ficaram contentes, esperando que alguém tivesse oficializado “Erechim” ou “Erexim”. “Portugal aceitou?”, disse, incrédula, a aeromoça. “Infelizmente. Parece que vão tirar o acento dessas paroxítonas com ditongos!”, disse o careca.

“Oh! Mas que infortúnio! Meu mundo caiu… Deus!”, gritava a aeromoça. “Qual o problema?”, quis saber o careca. “Tiraram meu acento! Meu pobre acento, que dava todo o impacto de meu nome, oh, que tristeza! Agora serei confundida com o verbo ‘ler’ na terceira pessoa do singular do imperativo afirmativo! Por quê eu? Por quê?”.

“Fique calma, Léia”, alguém a tranqüilizou. “Olha!”, gritou um senhor gordo de barba branca. “O que foi?”, “No início do parágrafo! O autor escreveu ‘tranqüilizou’! Com trema!”, “É verdade! Ele também pôs ‘vôo’ com acento circunflexo no início da narrativa!”, “Alguém avise a ele que esses conceitos ortográficos estão obsoletos!”.

“Mas como? Ele não está nem narrando mais, já faz umas três ou quatro linhas, olha só, até já começou um parágrafo novo”. “Tive uma idéia!”, “É sem acento, seu idiota!”, “Desculpa. Tive uma ideia!”, “Qual?”, “Encerrar a narrativa do nada”, “Não dá”, “Por quê?”, “Por que o leitor espera que a gente faça alguma coisa contra isso, ou ao menos alguma ação”, “Mas não dá pra ter ação sem o narrador, sem ele podemos apenas dialogar”, “Então alguém faça o papel de narrador”.

“Aí os passageiros se sentaram de novo e falaram pro piloto voar…”. Podem parar por aí! “Quem é esse?”. Eu sou o autor, oras. O que vocês acham que estão fazendo? “Bom, tu sumiu, aí a gente não sabia o que fazer, a história tinha que continuar”. Eu só fui tirar uma dúvida acerca da reforma. Não sabia se “gaúcho” perdia o acento ou não. “E perdeu?”. Não. “Haha, claro que não! Se o gaúcho perder o assento não tem diversão!”, disse um sujeito marrento, antes de ser fulminado por um ataque cardíaco.

“O autor matou ele!”, gritou uma senhora gorda. O piloto deu início à partida. O avião para. “Curitiba!”. Não, o avião para, do verbo parar, não tem mais acento. “Ah, sim”. O avião para. Eu desisto. Melhor rasgar essa página antes que alguém leia. “Oi?”, “Cala a boca, sua aeromoça burra”.