A coisa parecia ser grave, julgando o modo como ela me ligou hoje depois do almoço. Lembro de ter ouvido o telefone tocando, de baixar o cafezinho e puxar o aparelho de dentro do bolso. “Alô”. “Alô, oi Felipe, sou eu, Ana”. “Ana, oi, que bom falar contigo”, disse cinicamente. “Felipe, é o seguinte, eu preciso falar contigo urgentemente…”, “Já tá falando, oras”. “Não, não, é um assunto urgente. Hoje, dezenove horas, me espera em casa”. E ela desligou.
Eu não agüentava mais a voz dela. Eu não agüentava mais olhar para a cara dela e fingir que a nossa vida era toda unicórnios e nuvens de amor. Eu não agüentava mais ter que conviver com ela. E tudo começou justamente quando eu decidi investir mais firmemente em nossa relação e, ora essa, Ana transformou-se completamente. De uma das pessoas mais doces e inteligentes que já conheci à uma roedora compulsiva de unhas com insights tricotilomaníacos. Apesar disso, eu pensava “a vida é boa, sim senhor, a vida é boa”.
“Sabe de uma coisa, ela vai dizer que está grávida”, disse o Paulo, colega da firma, quando falei do misterioso telefonema da Ana. “Tu acha mesmo?”. “Felipe, eu já recebi essa ligação três vezes, vai por mim”. O Paulo sabia das coisas. O Paulo sempre sabia das coisas. Ele tinha quarenta e cinco, cara de trinta e oito, segundo casamento, três filhas, o carro do ano. Morreria de um infarto no ano seguinte. Sua vida foi boa.
Às quinze horas comecei a encarar o relógio. Dali a quatro horas eu estaria sendo transportado para um universo de fraldas e mamadeiras e arrotos e choros às quatro e meia da madrugada. Um universo do qual eu não conseguiria escapar. Um universo em constante expansão, cedo ou tarde ela pediria um segundo e, talvez, um terceiro. Ah, se eu fosse como o Paulo. Pelo menos ele teve duas. Eu tenho a Ana, mordendo as unhas e arrancando os cabelos.
Quando eu cheguei em casa, fiz questão de checar se Ana não estava por lá. Não estava, ainda bem. Caminhei apressadamente em círculos pela sala durante um bom tempo, imaginando minha vida como um pai de família porque, um filho ou acarreta em casamento, ou em aborto e, sabendo da fina educação da Ana em bons colégios fascistamente católicos, só me restava a primeira opção. “Minha vida é tão melhor assim, oh, e agora que faço?”, gritava para as paredes, que insistiam em se manter caladas. Vai ver tinham medo de influenciar minhas decisões, me transformar num ser infeliz e encarar minha desgraça de perto todos os dias até o dia de minha morte. Malditas, meu filho riscará vocês todos os dias com seus lápis de cera.
Ouvi a chave girando na fechadura. “Oh não, é agora, não tem mais como escapar!”. “Oi Felipe, como foi o trabalho?”. “Tudo bem, a mesma coisa de sempre, he-he”, disse, sorrindo amarelo. Notei que o cabelo dela andara caindo bem mais que o normal, talvez fossem os insights tricotilomaníacos, talvez fosse o uso abusivo da chapinha. Permaneci de pé junto ao abajur. Ela foi até a cozinha e ligou a TV. Talvez fosse o último capítulo da novela das sete.
“E então?”, eu disse. “Ham?”. “Tu queria falar comigo, tu me ligou hoje depois do almoço, então, pode falar”. Ela desligou a TV. O ato de desligar a TV indica seriedade absoluta, inquestionável, sempre foi essa a regra lá em casa. Principalmente quando eu mostrava o boletim para o meu pai. Zás e o Sérgio Chapelin ou o Cid Moreira (eventualmente o Antonio Fagundes) se desintegrava na hora. “Melhor tu te sentar”, ela me disse. Sentar era outra coisa que implicava em seriedade máxima, o que eu nunca entendi. Se alguém, sentado, recebe uma má notícia, levanta-se e coça a cabeça. Se alguém, de pé, recebe uma má notícia, senta-se e afunda a cabeça nas mãos. Sentei.
“Pronto, pode falar”. “Olha, Felipe, isso não é fácil, mas, olha, acontece que, de uns tempos para cá, eu sinto que tudo anda tão fraco entre a gente, tudo tão capenga, eu me sentia tão vulnerável e abandonada e indesejável que, bem, eu acabei, ham, como eu posso dizer, eu andei… Eu tô tendo um caso com outro cara, é isso”. Fitei o rosto de Ana. Fitei a cabeça de ralos cabelos. Os dedos com leve cobertura de sangue parcialmente coagulado. Sorri. Não havia atraso na menstruação, nem enjôos, só havia outro cara! “A vida é boa”, pensei, “principalmente quando só há uma por corpo”.