Sétimo Dia

•Julho 9, 2009 • Deixe um comentário

Então foi naquele dia que você se sentia deslocada
Abandonada pelos seus amigos e por sua sorte
Que eu pensei que poderia te enxergar perfeitamente
E que você era feita de algum material valioso
Porque eu fiquei com muito medo de te tocar.

E parece que todo o céu se fechou para nós naquela noite
E que Deus de fato existia e nos observava de longe
Se sentindo bastante orgulhoso pelas coisas que criou
E pelas coisas que ainda há de criar.

Não que eu tenha desistido do ateísmo
Mas com essa visão tão nítida do Paraíso
Fica até difícil desacreditar.

As Ligações Perigosas

•Julho 3, 2009 • Deixe um comentário

A coisa parecia ser grave, julgando o modo como ela me ligou hoje depois do almoço. Lembro de ter ouvido o telefone tocando, de baixar o cafezinho e puxar o aparelho de dentro do bolso. “Alô”. “Alô, oi Felipe, sou eu, Ana”. “Ana, oi, que bom falar contigo”, disse cinicamente. “Felipe, é o seguinte, eu preciso falar contigo urgentemente…”, “Já tá falando, oras”. “Não, não, é um assunto urgente. Hoje, dezenove horas, me espera em casa”. E ela desligou.

Eu não agüentava mais a voz dela. Eu não agüentava mais olhar para a cara dela e fingir que a nossa vida era toda unicórnios e nuvens de amor. Eu não agüentava mais ter que conviver com ela. E tudo começou justamente quando eu decidi investir mais firmemente em nossa relação e, ora essa, Ana transformou-se completamente. De uma das pessoas mais doces e inteligentes que já conheci à uma roedora compulsiva de unhas com insights tricotilomaníacos. Apesar disso, eu pensava “a vida é boa, sim senhor, a vida é boa”.

“Sabe de uma coisa, ela vai dizer que está grávida”, disse o Paulo, colega da firma, quando falei do misterioso telefonema da Ana. “Tu acha mesmo?”. “Felipe, eu já recebi essa ligação três vezes, vai por mim”. O Paulo sabia das coisas. O Paulo sempre sabia das coisas. Ele tinha quarenta e cinco, cara de trinta e oito, segundo casamento, três filhas, o carro do ano. Morreria de um infarto no ano seguinte. Sua vida foi boa.

Às quinze horas comecei a encarar o relógio. Dali a quatro horas eu estaria sendo transportado para um universo de fraldas e mamadeiras e arrotos e choros às quatro e meia da madrugada. Um universo do qual eu não conseguiria escapar. Um universo em constante expansão, cedo ou tarde ela pediria um segundo e, talvez, um terceiro. Ah, se eu fosse como o Paulo. Pelo menos ele teve duas. Eu tenho a Ana, mordendo as unhas e arrancando os cabelos.

Quando eu cheguei em casa, fiz questão de checar se Ana não estava por lá. Não estava, ainda bem. Caminhei apressadamente em círculos pela sala durante um bom tempo, imaginando minha vida como um pai de família porque, um filho ou acarreta em casamento, ou em aborto e, sabendo da fina educação da Ana em bons colégios fascistamente católicos, só me restava a primeira opção. “Minha vida é tão melhor assim, oh, e agora que faço?”, gritava para as paredes, que insistiam em se manter caladas. Vai ver tinham medo de influenciar minhas decisões, me transformar num ser infeliz e encarar minha desgraça de perto todos os dias até o dia de minha morte. Malditas, meu filho riscará vocês todos os dias com seus lápis de cera.

Ouvi a chave girando na fechadura. “Oh não, é agora, não tem mais como escapar!”. “Oi Felipe, como foi o trabalho?”. “Tudo bem, a mesma coisa de sempre, he-he”, disse, sorrindo amarelo. Notei que o cabelo dela andara caindo bem mais que o normal, talvez fossem os insights tricotilomaníacos, talvez fosse o uso abusivo da chapinha. Permaneci de pé junto ao abajur. Ela foi até a cozinha e ligou a TV. Talvez fosse o último capítulo da novela das sete.

“E então?”, eu disse. “Ham?”. “Tu queria falar comigo, tu me ligou hoje depois do almoço, então, pode falar”. Ela desligou a TV. O ato de desligar a TV indica seriedade absoluta, inquestionável, sempre foi essa a regra lá em casa. Principalmente quando eu mostrava o boletim para o meu pai. Zás e o Sérgio Chapelin ou o Cid Moreira (eventualmente o Antonio Fagundes) se desintegrava na hora. “Melhor tu te sentar”, ela me disse. Sentar era outra coisa que implicava em seriedade máxima, o que eu nunca entendi. Se alguém, sentado, recebe uma má notícia, levanta-se e coça a cabeça. Se alguém, de pé, recebe uma má notícia, senta-se e afunda a cabeça nas mãos. Sentei.

“Pronto, pode falar”. “Olha, Felipe, isso não é fácil, mas, olha, acontece que, de uns tempos para cá, eu sinto que tudo anda tão fraco entre a gente, tudo tão capenga, eu me sentia tão vulnerável e abandonada e indesejável que, bem, eu acabei, ham, como eu posso dizer, eu andei… Eu tô tendo um caso com outro cara, é isso”. Fitei o rosto de Ana. Fitei a cabeça de ralos cabelos. Os dedos com leve cobertura de sangue parcialmente coagulado. Sorri. Não havia atraso na menstruação, nem enjôos, só havia outro cara! “A vida é boa”, pensei, “principalmente quando só há uma por corpo”.

Dúvida

•Junho 29, 2009 • 1 Comentário

Eu te chamo dúvida,
Porque é só o que vejo na cidade
Sempre que atravesso a rua.
É só dúvida de virar a esquina do avesso
Ou deixar no lugar de sempre.
Dúvida não muda endereço
E nem mata de cansaço.
Dúvida faz mal para a cabeça
Se é dúvida em excesso
Ou se duvido escasso.

Eu te chamo dúvida
E te proclamo assim.
Duvido muito de ti
Mas tu não duvida de mim.

Duvida?

Coração do Rio Grande

•Junho 19, 2009 • Deixe um comentário

Sexta-Feira os dois brigaram feio. Ela desprezava o egoísmo dele, o fato de ele ser fã do Teixeirinha e sua mania por pausar os filmes de minuto em minuto para ir ao banheiro, ele desprezava a mania dela por limpeza e suas balas de menta com gosto de alvejante e os chicletes sem gosto. Mas, claro, tudo servia como pretexto para o tédio. Todos os amigos achavam que eles eram o casal perfeito, sem brigas e tudo o mais. Mas esse tipo de casal – o que todo mundo acha que é perfeito – é justamente aquele que explode e do nada, se finda.

Enquanto os dois gritavam um com o outro, acordando a velha do andar de baixo, cuja cacatua passava o dia cantarolando o hino nacional, um convento próximo era palco de outra grande ruptura. Uma das freirinhas perdeu o pai num acidente de carro. Trágico, diriam alguns. Irônico, diziam aqueles que sabiam no que o homem estava prestando atenção quando esborrachou o carro num muro. Com isso, a freirinha chorou e chorou e gritava “Deus, por quê?”. O padre dizia “não questione”. Ela dizia “eu questiono, oh, não pode haver um Deus capaz de fazer isso com seus filhos!”.

Ele pegou todas as roupas que pôde e jogou numa mochila, juntamente com alguns livros que demonstravam sua falta de bom-gosto. Desceu as escadas arrastando aquele bolo imenso de calças, camisas e auto-ajuda. Uma voz esganiçada gritava “impávido colosso” quando ele notou que a chuva começava a cair. Apressou o passo, – “terra adorada!” – atravessou a porta e correu, até chegar a um barzinho quase vazio, excetuando o garçom, dois velhos jogando damas e uma garota de aspecto jovial, carregando também uma mochila.

Então ele sentou-se ao seu lado. “Sabe”, disse ele, “eu perdi a fé que eu tinha no amor”. “E eu”, disse ela, “perdi a que eu tinha em Deus”. O irônico é que o pai dela havia morrido quatro horas antes, quando perdeu o controle do carro e foi de encontro a um muro. Tudo isso porque estava prestando atenção a uma cópia em vinil de “Teixeirinha, o Gaúcho Coração do Rio Grande” sendo jogada de uma janela por uma mulher furiosa com seu namorado.

Uma Vida de Papel

•Junho 16, 2009 • 1 Comentário

O cinema é a representação visual do universo literário ponto. Podemos identificar facilmente em um filme as referências visuais e literárias do autor, da mesma forma como fazemos com um poema ou romance. A experiência sensitiva proporcionada por um filme é, porém, bem mais completa. Nossos olhos são submetidos a sessões frenéticas de palavras escritas na luz e nossos ouvidos experimentam a maravilha da palavra falada. Desse modo, a interpretação cinematográfica torna-se levemente mais complicada, já que dispomos de tantos elementos prontos a serem lidos e decifrados.

O bom leitor é o bom expectador e vice-versa. O filme Uma Vida de Papel é um filme para o bom leitor. As referências visuais e literárias contidas na obra são facilmente perceptíveis a ele, não tornando a experiência sensitiva mais completa, mas completa. O processo de desconstrução e interpretação da obra é, ao mesmo tempo, inverso e complementar ao de construção. A sugestão do autor é a de que o expectador/leitor pergunte-se os reais motivos e objetivos do curta.

Que todo elemento absurdista não seja visto apenas como absurdo, que o expectador se pergunte a importância de cada ponto de luz, a necessidade de cada cena, o uso de cada palavra, a origem de cada referência. Que o filme não seja apenas visto, mas experimentado. Cinema e literatura andam de mãos dadas e pernas entrelaçadas.

Para assistir, clique aqui.

O Teu Catarro

•Março 31, 2009 • 2 Comentários

Ainda sinto o teu catarro
Cheiro de café
Gosto de cigarro.

O teu catarro.

Preso na minha garganta.

A boca que beija
É a boca que fala.
Tua boca me beija
Minha boca te cala.

Tua boca despeja
O teu catarro.

Minha boca saliva
E ainda implora
Por uma gota lasciva

Do teu catarro.

Portugal Disse Sim ou Como a Reforma Ortográfica Afetará a Relação Autor-Personagem

•Março 3, 2009 • 2 Comentários

Em Brasília, dezenove horas. Um dos aviões da Brasilis Airlines estava pronto para levantar vôo. Os passageiros ainda se acomodavam dentro da aeronave quando a aeromoça, loira e esguia, tomou o microfone. “Senhores passageiros, durante o vôo permaneçam em seus assentos, qualquer…”, mas fora interrompida por um homem careca na casa dos quarenta anos. “Mas, como faremos isso? A palavra ‘voo’ perdeu seu acento!”

Ela então largou o microfone. “O que o senhor disse?”, “Acabaram de tirar o acento de ‘voo’!”, “Como assim?”, “Portugal aceitou!”. Os passageiros entraram em alvoroço, muitos diziam não querer perder seus tremas e seus hífens, outros ficaram contentes, esperando que alguém tivesse oficializado “Erechim” ou “Erexim”. “Portugal aceitou?”, disse, incrédula, a aeromoça. “Infelizmente. Parece que vão tirar o acento dessas paroxítonas com ditongos!”, disse o careca.

“Oh! Mas que infortúnio! Meu mundo caiu… Deus!”, gritava a aeromoça. “Qual o problema?”, quis saber o careca. “Tiraram meu acento! Meu pobre acento, que dava todo o impacto de meu nome, oh, que tristeza! Agora serei confundida com o verbo ‘ler’ na terceira pessoa do singular do imperativo afirmativo! Por quê eu? Por quê?”.

“Fique calma, Léia”, alguém a tranqüilizou. “Olha!”, gritou um senhor gordo de barba branca. “O que foi?”, “No início do parágrafo! O autor escreveu ‘tranqüilizou’! Com trema!”, “É verdade! Ele também pôs ‘vôo’ com acento circunflexo no início da narrativa!”, “Alguém avise a ele que esses conceitos ortográficos estão obsoletos!”.

“Mas como? Ele não está nem narrando mais, já faz umas três ou quatro linhas, olha só, até já começou um parágrafo novo”. “Tive uma idéia!”, “É sem acento, seu idiota!”, “Desculpa. Tive uma ideia!”, “Qual?”, “Encerrar a narrativa do nada”, “Não dá”, “Por quê?”, “Por que o leitor espera que a gente faça alguma coisa contra isso, ou ao menos alguma ação”, “Mas não dá pra ter ação sem o narrador, sem ele podemos apenas dialogar”, “Então alguém faça o papel de narrador”.

“Aí os passageiros se sentaram de novo e falaram pro piloto voar…”. Podem parar por aí! “Quem é esse?”. Eu sou o autor, oras. O que vocês acham que estão fazendo? “Bom, tu sumiu, aí a gente não sabia o que fazer, a história tinha que continuar”. Eu só fui tirar uma dúvida acerca da reforma. Não sabia se “gaúcho” perdia o acento ou não. “E perdeu?”. Não. “Haha, claro que não! Se o gaúcho perder o assento não tem diversão!”, disse um sujeito marrento, antes de ser fulminado por um ataque cardíaco.

“O autor matou ele!”, gritou uma senhora gorda. O piloto deu início à partida. O avião para. “Curitiba!”. Não, o avião para, do verbo parar, não tem mais acento. “Ah, sim”. O avião para. Eu desisto. Melhor rasgar essa página antes que alguém leia. “Oi?”, “Cala a boca, sua aeromoça burra”.

O Oscar 81

•Fevereiro 24, 2009 • 2 Comentários

Parece que a novela das oito anda tão nas graças da população que até interferiu na decisão da Academia de Imprensa de Hollywood que, entregando uma certa estatueta dourada pela octagésima primeira vez, premiou o último filme do Danny Boyle, o tal do Slumdog Millionaire (que eu ainda não vi), que tem aquele guri de Skins como protagonista. Aliás, alguém tá acompanhando a terceira temporada de Skins?

O Sean Penn também se deu tri bem né, levou o segundo Oscar de sua brilhante carreira, por sua interpretação do político gay Harvey Milk em Milk (que eu ainda não vi), do Gus Van Sant, mostrando que Hollywood pode estar sim levando numa boa a purpurinização do cinema. A mesma Hollywood que premiou o Tom Hanks de Philadelphia e que foi meio birrenta não dando pro Heath Ledger de Brokeback Mountain. Mas aí tu me diz “Ah, mas o Philip Seymour Hoffman todo aviadado levou o Oscar naquele ano”. Aí eu digo que me falta um pouquinho de argumentação.

Falando em Heath Ledger, o Joker de The Dark Knight (esse eu vi) levou a estatueta, ou melhor, foi agraciado com o prêmio, mas não pôde levar por estar nesse momento sob sete palmos de terra. Todo mundo sabia que ele ia levar essa. Sorte do Christian Bale, que não vai ter que aguentar o homem falando “fui indicado, tu não”. Mas o Bale nem é grande coisa mesmo. Só presta em American Psycho e olhe lá.

E eu acho que já era hora de a Kate Winslet levar essa coisa pra casa, pelo amor de Brian Cohen. Indicada pela quarta vez, por The Reader (que eu ainda não vi), a mulher finalmente conseguiu. E eu acho que ela não levou das outras vezes devido ao nível das concorrentes porque, minha opinião, ela é uma ótima atriz. Vejam bem. Em Little Children, ela estava impecável. Mas aí tinha uma tal de Helen Mirren brincando de rainha, fazendo uma perfeita Elizabeth II. Em Eternal Sunshine Of A Spotless Mind, ela também estava ótima, atuando tragicomicamente em um filme emocionante. Mas aí tinha a Hilary Swank sendo aleijada e fazendo marmanjão chorar em Million Dollar Baby, aí já viu. Dona Winslet foi indicada outras duas vezes para atriz coadjuvante, para que constem nos autos.

Eu já esperava que a Penélope Cruz fosse premiada. Primeiramente, porque o Jack Pallance já morreu, logo, não perigaria de alguém ler o nome da Marisa Tomei. Segundo, porque ela está fantástica e sensual como a psicótica María Elena em Vicky Cristina Barcelona (esse eu vi), do como sempre injustiçado Woody Allen. Injustiçado pela Academia e pela própria Penélope, que subiu no palco e agradeceu ao Almodóvar e ao Bigas Luna, mas nada de Woody. Que feio.

Não foi dessa vez que o Van Sant levou o Oscar. Keep trying, Gus. Nosso querido Danny Boyle, o responsável pelo clássico Trainspotting, de 1996, acabou sendo agraciado com o troço em sua primeira indicação, por Slumdog Millionaire, que eu ainda não vi, como já disse. Pra falar a verdade, o único filme do Boyle que eu vi inteiro mesmo foi Trainspotting. Eu sei que 28 Days Later tem uns zumbis porque eu vi uns trechos uma vez no Inter Cine e tem o Christopher Eccleston (alguém anda acompanhando Doctor Who?) e que o Leonardo DiCaprio fica fumando maconha na praia em The Beach. Ah, e tem aquele do sol explodindo, Sunshine né?

Em tempos de crise, só Oscar e Carnaval no mesmo dia pra aliviar a barra.

Oito e Meia

•Fevereiro 15, 2009 • 1 Comentário

Eu vejo uma porta vermelha
E vejo as garotas de biquíni.
Eu penso paint it black
Paint it black and white,
Fellini.

Prazeres Mortais

•Fevereiro 9, 2009 • 1 Comentário

Hoje de manhã eu acordei e decidi ser pervertido. Não aqueles pervertidos que saem mostrando as partes em becos ou aqueles que telefonam para mulheres e gemem. Não, hoje quando eu acordei e percebi que queria ser um tarado, optei por ser um tarado sutil, bem classudo, na verdade. Aí então eu pensei em como ser um tarado sutil e educado, não podia ser pedindo por-favor-a-senhora-gostaria-de-sacolejar-meu-troço, não, nem pensar. Concluí que o prazer de ser um pervertido não é a premeditação, mas sim a execução e esta torna-se bem mais prazerosa quando impulsiva.

Então eu comprei um sorvete. Uma casquinha mista. Daquelas que saem dois reais no McDonald’s. Aí eu me sentei numa mesinha do McDonald’s, onde eu fiquei a alguns metros de uma garota muito bonita, belos peitos e tudo mais. Ela estava de frente para mim e comia batatas fritas. Entre uma mordida e outra, olhou para mim. Aquilo foi a deixa, era a hora de botar a perversão em prática.

Meti a língua dentro da casquinha, lambi aquelas paredes cônicas suavemente. Ela me desferiu um olhar surpreso. Pensei que iria embora, mas em vez disso, contornou uma batata frita com sua língua, até que enfiou o tubérculo inteiramente em sua boca e conduziu-o por sua garganta, notei que nem mastigou. Aquilo foi uma provocação, eu senti. Passei a lamber o interior da casquinha com mais agressividade.

Minha língua ia para a frente e para trás e circuncidava a abertura no sentido horário. O sorvete derretido escorria em cima de um guardanapo com a cara do Ronald McDonald, misturado à minha saliva. E lá foi ela, lambuzou uma batata com ketchup e sugou tudo aquilo, batata e um pouco de ketchup, porque o resto do molho espirrou em sua face.

Quem visse a cena, dois adultos lambuzados de ketchup e sorvete, pensaria na infantilidade que aquilo aparentava, quando, na verdade, a sobremesa e o molho eram extensões de nossos fluidos corporais. Repentinamente, joguei o que sobrara da casquinha na boca e mastiguei devagar. Engoli e lambi meus lábios, para que os farelos que ali ficaram se juntassem a seus semelhantes em meu estômago.

As batatas dela já tinham acabado. Por isso, ela levantou, pegou a bolsa e já caminhava na direção de algum lugar que nunca saberei qual é. Permaneci imóvel em minha cadeira. Aquilo havia sido intenso. E as pessoas à minha volta, bem, elas não sabem o que estão perdendo, dando suas mordidas banais em seus sanduíches. Amigos, eu experimentei toda a sexualidade que o fast-food pode oferecer.

Antes de ir para casa, passei no super e comprei um pote de sorvete. Chamem isso de masturbação.